domingo, 9 de janeiro de 2011

DISTRITO FEDERAL




Roriz e Arruda no governo Agnelo



Do jornal Opção, Goiânia



Pode ser por falta de uma maior variedade de quadros capacitados entre as forças políticas que venceram a eleição de 2010. Mas também pode ser, como se discute fartamente nos bastidores, mais um caso de acomodação de antigos interesses no Palácio dos Buritis. O fato é que o governador Agnelo Queiroz (PT), do ponto de vista da opinião pública, optou por algumas tacadas de alto risco na composição de sua equipe. Somente o tempo será capaz de indicar se sua rendição quase total ao pragmatismo político vai funcionar ou se o eleitor já começará o jogo avaliando-o com certa desconfiança. Isso pode acontecer pelo fato de o petista ter aproveitado em seu primeiro escalão remanescentes tanto da administração de Joaquim Roriz quanto de José Roberto Arruda.



Composição da equipe de auxiliares é um campo minado para qualquer governante ao assumir as rédeas do poder. É um clichê verdadeiro dizer que a lua-de-mel da vitória eleitoral tem prazo curto de duração justamente pela dor de cabeça da distribuição dos espaços na administração – que se inicia ainda em meio ao foguetório das comemorações. No Brasil, quase todos os projetos majoritários de poder dependem de um intrincado balé de forças partidárias, que raramente são coerentes com ideologias ou programas. O melhor exemplo da atualidade é a dança complicada entre PT e PMDB. Desde os primeiros tempos da Era Lula, a cúpula do Partido dos Trabalhadores vislumbrou que os peemedebistas deveriam ser os parceiros preferenciais – já calculando as dificuldades que teriam pela frente.



Os apuros que a presidente Dilma Rousseff tem passado com o PMDB, de seu vice, Michel Temer, na formação de seu governo apenas ilustram o que está acontecendo no Distrito Federal. É ilustrativo, mas diferente. Dilma ainda não conseguiu aplacar a fome dos parceiros por mais espaços na máquina federal. O problema de Agnelo apresenta uma natureza distinta. O petista adotou uma estratégia no mínimo curiosa na tentativa de domesticar todos os humores políticos de sua camarilha, principalmente dos peemedebistas, uma vez que parece ter entregado a eles tudo o que haviam encomendado. Em tese, o PT não poderia reclamar, pois tem seis cargos no primeiro escalão e recebeu parte significativa das administrações regionais.



Só que em política, nem sempre vale o que está no papel. Na vida real, os problemas são mais complexos. Uma dessas complexidades envolve a própria legenda de Agnelo. Ele deu a prestigiada Secretaria de Governo para o deputado federal Paulo Tadeu (PT). Uma decisão polêmica, por acirrar as disputas internas no partido. Do ponto de vista da necessária consolidação de seu espaço, como “cristão novo” na sigla, a tacada com o nome de Tadeu foi acertada. Mas talvez tenha sido tomada de modo prematuro. Antes mesmo da virada do ano, Agnelo já teve de enfrentar o primeiro fogo amigo por conta de correntes internas do PT, que não estariam satisfeitos com os espaços que lhes foram destinados.



Além de ter pisado no calo da corrente majoritária do PT, a Articulação, o novo governador abriu espaços cobiçadíssimos para o PMDB e grupos ou nomes ligados à sigla. Estão com a legenda do vice-governador Tadeu Filippelli as secretarias de Obras (Luiz Carlos Pitiman, também deputado federal eleito) e de Transportes (José Valter Vasquez) – ambos os secretários possuem laços com Filippelli. Com isso, o vice passou a ser o alvo predileto dos ataques petistas nos corredores do poder e e até na mídia. É possível que os interesses diretos das várias alas do PT já estejam perto de solução. A eleição da mesa da Câmara Legislativa pode ser o que faltava para esse ajuste.



Ninguém pode ser condenado por se viabilizar politicamente, ainda mais em um cenário no qual pesados interesses, inclusive econômicos, sempre atuaram com proficiência. Contudo, a principal questão que se colocará acerca da equipe de Agnelo poderá partir da opinião pública – dependendo, é claro, da competência da oposição para explorar essas questões. A eleição aconteceu há pouco mais de três meses, mas não custa lembrar: afinal, Agnelo Queiroz não foi eleito na esteira de um grande sentimento de mudança? Alguns petistas chegaram a “conceituar” a eleição de Agnelo como uma espécie de “comoção pública” pela moralização do GDF.



A escolha do vice acontece no período eleitoral, quando todos as cartas são quase que desesperadamente aceitas. Mas o que dizer da escolha de auxiliares de primeiro escalão? Além dos nomes ligados a Filippelli, Agnelo nomeou figuras como David Mattos para o Metrô-DF, que foi secretário de Obras do ex-governador Rogério Rosso e seria apadrinhado da ex-ministra Erenice Guerra. Pode ser que nada disso resulte em problemas diretos para a administração, mas causa estranhamento. Afinal, lembrando a mulher de César, uma imagem vale mais que mil desculpas.

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