sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Para Agnelo, a Saúde no Distrito Federal ainda vive uma "tragédia"








Juliana Boechat



Publicação: 04/02/2011 08:00 Atualização:



Um dia após a aprovação do parecer do Tribunal de Contas da União (TCU) que apontou irregularidades cometidas na Secretaria de Saúde do Distrito Federal entre 2008 e 2010, o governador Agnelo Queiroz (PT) considerou a realidade dos hospitais públicos uma “tragédia”. Ao fim de uma solenidade realizada na manhã de ontem, no Palácio do Planalto, o chefe do Executivo prometeu recuperar e reformular o sistema público de saúde da capital federal. Entre os problemas encontrados na auditoria do órgão de fiscalização estão o desvio de recursos, o superfaturamento na aquisição de remédios e a concentração das compras em poucas empresas, muitas vezes com dispensa de licitação. O prejuízo calculado durante os dois anos chega a R$ 6,5 milhões. Em parecer, o ministro José Jorge defendeu que não havia explicação para a falta de remédio para os pacientes da rede.



Segundo Agnelo, a população recebeu uma “herança maldita e criminosa” na Saúde da capital. “Nós sabemos até mais do que está na auditoria. Se quiserem ver o que é tragédia, vá à Farmácia Central da Secretaria de Saúde para encontrar medicamentos em temperatura superior a 40ºC sendo alterados, desvios de medicamentos e falta de controle”, criticou o governador.



Ele prometeu recuperar a Saúde com medidas como a contratação de funcionários e a construção de unidades básicas. “Temos que dar solução e proteger a nossa população. É o que nós vamos fazer agora. Não assumi a Secretaria de Saúde, mas eu fiz mais: assumi o Gabinete de crise e, assim, levo comigo outros órgãos do GDF. A responsabilidade é muito maior”, defendeu. Em 30 dias à frente do Executivo, Agnelo percorreu oito hospitais e anunciou medidas emergenciais. Hoje, o governador estará no Hospital Regional de Planaltina.



Realidade caótica

O documento assinado pelo ministro José Jorge mostra uma realidade caótica. Segundo ele, R$ 150 milhões seriam suficientes para custear os medicamentos, mas foram empenhados R$ 203,9 milhões em 2009. Ainda assim, os pacientes passaram um longo tempo comprando remédios, ataduras e esparadrapos. Em 2008, por exemplo, o GDF recebeu do governo federal R$ 34,8 milhões destinados à área farmacêutica, mas acabou aplicando cinco vezes mais: R$ 158,9 milhões.



A concentração de mercado nas mãos de poucas empresas e o sobrepreço em alguns medicamentos foram destacados no relatório. Só a empresa Hospfar — Indústria e Comércio de Produtos Hospitalares Ltda — forneceu 40% dos remédios comprados pelo DF em 2007 e 2008. Os auditores constataram que o GDF não possui estudos sobre a demanda dos hospitais, tampouco fiscaliza os estoques.





Ameaça de paralisação



Os funcionários da Real Sociedade Espanhola de Beneficência, entidade que terá de deixar a administração do Hospital Regional de Santa Maria em dois meses, marcaram uma paralisação para a próxima terça-feira. Os servidores pretendem cruzar os braços, mas os médicos e demais profissionais atenderão os casos emergenciais. A categoria discorda da forma como tem sido conduzida a substituição das atuais equipes.



O grupo luta pela elaboração de um calendário de rescisão de contrato. Segundo o diretor do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde (Sindsaúde), Luiz do Vale, a maioria dos funcionários ainda não sabe quando terá de deixar os cargos. “O pessoal está perdido, não sabe até quando tem de continuar trabalhando. Eles precisam dessas definições para procurarem outros empregos”, justificou.



A Real Sociedade não administrará mais o HRSM e o GDF terá de contratar servidores para preencher o quadro. Em nota, a Secretaria de Saúde informou que “os desligamentos vêm ocorrendo de forma planejada”. Além disso, o órgão afirmou que 311 funcionários da empresa cumprem aviso prévio e 109 já se desligaram da instituição. Com isso, as novas contratações começaram nas áreas de pediatria e anestesiologia. (Lucas Tolentino)

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